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Pedra Bela,03/02/2026

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Thiago Moreno

2026 e a Cultura Nacional.

Margareth Menezes, destacou a expectativa de aprovação do Plano Nacional de Cultura, enviado para análise do Congresso Nacional | Diego Campos/Secom-PR
2026 e a Cultura Nacional.

Início de 2026: retórica de avanço realidade conflituosa

O início de 2026 chega com discursos oficiais entusiasmados sobre a consolidação das políticas culturais, mas também com uma dose saudável de ceticismo  porque, na prática, o que se constrói nas palavras nem sempre se reflete nas experiências concretas dos trabalhadores e coletivos culturais.

Nos últimos meses, o Ministério da Cultura (MinC) tem enfatizado que 2025 foi um ano de reconstrução e fortalecimento das políticas culturais, com ampliação de programas e consolidação de instrumentos como a Política Nacional Aldir Blanc (PNAB) e um novo Plano Nacional de Cultura (PNC) que orientará ações até 2035.

Essa narrativa  de que a cultura finalmente saiu do ciclo de desmonte e cortinas de fumaça  é importante e deve ser saudada por quem vê a cultura como mais do que espetáculo, mas como direito social e vetor de inclusão democrática. Ainda assim, é preciso separar intenções de resultados.


Oportunidades reais nem sempre iguais para todas e todos

Existem avanços concretos. Estados como o Rio Grande do Sul já lançaram novos ciclos de financiamento da Aldir Blanc, com dezenas de milhões destinados a projetos artísticos e criativos. No Pará, editais de projetos culturais abrem espaço para centenas de propostas, promovendo circulação e criação de obras em várias linguagens.

Além disso, iniciativas como a ampliação da Cultura Viva e da Política Nacional para Culturas Tradicionais e Populares mostram um esforço de descentralização, incluindo grupos que historicamente foram marginalizados nas políticas públicas. São passos que, na teoria, representam um Brasil culturalmente mais plural.

No plano internacional, o MinC tem promovido ações para fortalecer a presença da cultura brasileira em fóruns globais, valorizar a diversidade cultural e integrar o país em debates sobre economia criativa, sustentabilidade e cooperação internacional.

Esses movimentos são, em muitos casos, inéditos ou recuperam agendas que ficaram anos à deriva. Mas não apagamos da história a desigualdade estrutural no acesso a recursos e decisões políticas  um gargalo que persiste.


O problema que não muda: concentração e iniquidade

Aqui está o cerne do ceticismo: quem realmente se beneficia dessas políticas?

Estudos e análises independentes evidenciam que a distribuição de incentivos culturais ainda se concentra nas grandes metrópoles e em áreas já favorecidas do eixo Rio–São Paulo, enquanto estados do interior e regiões periféricas seguem subfinanciados e sub-representados.

Mesmo com editais e instrumentos em funcionamento, questões como burocracia, falta de transparência e gargalos administrativos continuam a emperrar a execução e a efetividade de programas  como demonstram denúncias sobre a falta de prestação de contas e estruturação problemática da Lei Rouanet.

Nesse sentido, o discurso de que “a cultura chegou para ficar” pode soar como celebração prematura ou um tapa otimista diante de um espelho que ainda não reflete a diversidade cultural brasileira em sua plenitude.


Expectativas para 2026: potencial x limites

🔹 Expectativa positiva:

  • Continuidade e aprimoramento da PNAB com ciclos de financiamento mais robustos e participação social ampliada;

  • Expansão das ações de Cultura Viva e fortalecimento das expressões culturais tradicionais e populares;

  • Maior integração com políticas de economia criativa e internacionalização da produção cultural.

🔸 Pontos de crítica e alerta:

  • Sem gestão mais transparente e responsável dos recursos (e controle fiscal eficaz), editais podem aumentar, mas sem impacto real na base;

  • A concentração dos benefícios ainda sinaliza que uma minoria continuará a capturar a maior parte dos incentivos e visibilidade;

  • A dependência de incentivos fiscais e da articulação política pode expor a cultura à volatilidade das agendas partidárias e aos ciclos eleitorais.


Política cultural como disputa e não como detalhe

A cultura sempre foi terreno de disputa: de narrativas, de identidade, de quem decide qual história é contada e para quem. No Brasil de 2026, vemos um esforço claro de resgatar políticas públicas que deem suporte ao setor algo que deve ser analisado com otimismo crítico.

Mas a palavra-chave seguirá sendo disputa: entre propostas que genuinamente democratizam o acesso e aquelas que transformam a política cultural em vitrines de marketing institucional ou em moeda de troca eleitoral.

A cultura brasileira é plural, resiliente e inventiva  e merece políticas que reflitam essa riqueza, não apenas em discursos oficiais, mas em recursos equitativos, participação social efetiva e resultados que alcancem quem está fora dos grandes centros e dos círculos de poder.

Se 2026 marcar o início de um ciclo verdadeiramente descentralizado e democrático de políticas culturais, teremos um ano aplaudido pela comunidade artística. Se repetir padrões de desigualdade estrutural, continuará refletindo uma cultura que, apesar de poderosa em expressão, luta para ser verdadeiramente reconhecida como direito de todas e todos.

por Thiago Moreno



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