Regina Papini Steiner
Inundações no Nepal expõem trabalhadores e riscos da crise climática
Tragédia no Nepal expõe trabalhadores da energia aos efeitos extremos da crise climática
Inundações devastaram comunidades do Himalaia e atingiram projetos hidrelétricos; desastre reforça a necessidade de proteção laboral, sistemas de alerta e financiamento climático para países vulneráveis
por Regina Papini Steiner - Jornal Iconic
O Nepal realizou nesta segunda-feira, 7 de setembro de 2026, um dia de luto nacional pelas vítimas das inundações que atingiram o país e áreas próximas ao Tibete. Enquanto famílias celebravam cerimônias em memória de seus parentes, equipes de resgate continuavam procurando desaparecidos, incluindo trabalhadores de projetos hidrelétricos possivelmente presos em túneis.
A inundação repentina ocorreu em 26 de agosto, na região do rio Bhote Koshi, próxima à fronteira entre Nepal e China. A força da água atravessou comunidades, destruiu estradas, pontes, moradias e estruturas de geração de energia. As autoridades nepalesas solicitaram apoio internacional para ampliar as buscas e iniciar a reconstrução.
Os números de mortos e desaparecidos continuam sujeitos a alterações, devido à dificuldade de acesso às áreas atingidas e às divergências entre levantamentos nacionais e regionais. Reportagem da Reuters informou que centenas de trabalhadores ligados a empreendimentos hidrelétricos estavam entre os desaparecidos. Parte deles poderia estar em redes de túneis atingidas pela inundação.
A situação evidencia que, por trás das grandes obras de infraestrutura, existem trabalhadores frequentemente submetidos a riscos agravados pela localização dos empreendimentos, pelas condições geológicas e pela ausência de sistemas eficientes de alerta e evacuação.
Comunidades vulneráveis foram as mais atingidas
Segundo o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, o governo nepalês estimou que aproximadamente 84 mil pessoas, distribuídas por 17 municípios de seis distritos, foram afetadas. As áreas atingidas incluem Rasuwa, Nuwakot, Dhading, Chitwan, Gorkha e Tanahu.
O levantamento preliminar do PNUD mostra que cerca de 76% da população desses municípios já vivia em localidades com vulnerabilidade acima da média antes da inundação. Isso significa que o desastre não encontrou todas as pessoas nas mesmas condições: famílias pobres, comunidades rurais, trabalhadores temporários e moradores de regiões isoladas enfrentam maiores dificuldades para abandonar áreas de risco e reconstruir suas vidas.
A tragédia pode ter produzido cerca de 2,2 milhões de toneladas de destroços, quando considerados restos de construções, objetos pessoais, vegetação, rochas e sedimentos transportados pelas águas. Os danos potenciais somente aos edifícios foram estimados preliminarmente em US$ 158,6 milhões, mas o próprio PNUD ressalta que esse valor não representa a totalidade das perdas.
Há ainda prejuízos difíceis de calcular, como a interrupção de serviços públicos, a destruição dos meios de subsistência, a perda de documentos, o deslocamento de famílias e os efeitos emocionais sobre sobreviventes.
Energia limpa também exige responsabilidade social
A hidreletricidade ocupa uma posição importante na economia do Nepal. O país montanhoso possui rios abundantes e grande potencial para produção de energia, inclusive para exportação aos países vizinhos. Entretanto, muitos projetos estão instalados em vales estreitos e territórios expostos a deslizamentos, avalanches, terremotos e inundações repentinas.
Embora seja considerada uma fonte renovável, a energia hidrelétrica não está livre de impactos sociais e ambientais. Grandes empreendimentos podem transformar rios, deslocar comunidades e aumentar a presença de trabalhadores em áreas de elevado risco climático e geológico.
O desastre abre espaço para uma pergunta essencial: quais medidas de proteção existiam para os trabalhadores que estavam nos túneis e canteiros de obras? Também será necessário investigar se havia rotas de fuga, comunicação emergencial, monitoramento das geleiras e treinamento adequado para evacuação.
Não se trata de abandonar as energias renováveis, mas de reconhecer que a transição energética somente será justa quando proteger as pessoas que trabalham nas obras e as comunidades que vivem nos territórios afetados.
Uma crise produzida de forma desigual
O Himalaia é particularmente vulnerável ao aumento das temperaturas. O derretimento das geleiras e a formação ou expansão de lagos glaciais podem aumentar o risco de inundações repentinas. Chuvas intensas, instabilidade das encostas e alterações nos ciclos da água tornam esses eventos ainda mais perigosos.
O PNUD classifica a tragédia como um alerta sobre os riscos climáticos crescentes enfrentados pelas comunidades das montanhas. A instituição defende investimentos em adaptação, sistemas de alerta, planejamento territorial e medidas para enfrentar os efeitos do recuo das geleiras.
É necessário, entretanto, evitar conclusões precipitadas sobre a causa imediata da inundação. A relação entre um evento específico e a mudança climática precisa ser investigada cientificamente. Ainda assim, o aquecimento global amplia as condições de vulnerabilidade em regiões de altas montanhas e pode aumentar a intensidade de determinados desastres.
O Nepal contribuiu muito pouco para a concentração histórica de gases do efeito estufa, mas está entre os países que suportam algumas das consequências mais graves da crise ambiental. Essa desigualdade é uma das questões centrais da justiça climática: os países que menos poluíram possuem menos recursos para prevenir tragédias, proteger suas populações e financiar a reconstrução.
Reconstruir sem repetir os mesmos riscos
A resposta humanitária precisa atender imediatamente as famílias desabrigadas e garantir água potável, alimentos, medicamentos, abrigo e proteção contra doenças. O Nepal também solicitou equipamentos como drones, pontes provisórias, materiais para identificação de vítimas e instrumentos de prevenção de epidemias.
A reconstrução, porém, não poderá se limitar à reposição das estruturas destruídas. Será necessário revisar a localização e os protocolos de segurança dos empreendimentos hidrelétricos, fortalecer o monitoramento das geleiras e integrar o conhecimento das comunidades locais aos sistemas de prevenção.
Também caberá à comunidade internacional assumir responsabilidades. Países ricos, instituições financeiras e empresas beneficiadas pelos projetos de infraestrutura precisam participar do financiamento da adaptação climática sem criar novas dívidas para as populações atingidas.
A tragédia do Nepal mostra que não existe energia verdadeiramente limpa quando a segurança dos trabalhadores e das comunidades permanece em segundo plano. A transição energética precisa ser ambientalmente responsável, socialmente justa e capaz de preservar vidas antes que novos desastres transformem vulnerabilidade em luto.
Fontes consultadas: PNUD — avaliação preliminar das inundações no Nepal; Reuters — buscas pelos trabalhadores de projetos hidrelétricos; ONU — resposta humanitária ao desastre



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