Carlos Silva
Novo modelo de economia financeira
O mundo está às vésperas de um novo modelo de economia financeira, em que finanças, tecnologia, políticas públicas e sustentabilidade se entrelaçam de forma inédita. Para os profissionais de jornalismo, isso representa uma oportunidade de reinterpretar a “economia” não apenas como números de PIB ou taxas de juros, mas como sistema vivo que conecta crédito, investimento produtivo, inovação, bem-estar social e meio ambiente. Se bem abordado, esse modelo pode revelar novos caminhos para inclusão, crescimento e resiliência mas exige vigilância, análise crítica e compreensão das suas complexidades.
Novo modelo de economia financeira: o que muda
O panorama econômico global está em mutação. Diante de desafios como desigualdade crescente, fracasso de previsões macroeconômicas tradicionais, instabilidade financeira e crises ambientais, economistas e formuladores de políticas vêm propondo modelos que rompem com os paradigmas clássicos. Esse novo modelo de economia financeira captura algumas dessas mudanças:
A interação entre o setor real (produção, emprego, tecnologia) e o financeiro deixa de ser periférica para tornar-se central.
A estrutura e o papel da finança – crédito, bancos, mercados de capitais – são reconhecidos como determinantes do crescimento e da estabilidade, não apenas reflexos.
Modelos monetários, fiscais e institucionais são repensados para lidar com contextos de elevada incerteza, shocks múltiplos (pandemia, guerra, clima) e digitalização.
Democratização de ativos, novas formas de propriedade e tecnologia financeira (fintech, tokenização, DeFi) entram no horizonte.
Por exemplo, o framework New Structural Financial Economics propõe repensar “o papel da finança em servir a economia real” ou seja: a finança não existe apenas para especular, mas para impulsionar produção, emprego e inovação.
Outro exemplo é o destaque da Ben Bernanke (ex-governador do Federal Reserve System) para a necessidade de revisão dos modelos macroeconômicos de previsão monetária, diante de falhas evidentes durante a pandemia.
Componentes centrais do novo modelo
Finança voltada à economia real
No novo modelo, bancos, mercados de crédito e instrumentos financeiros são projetados para apoiar poupança produtiva, investimento em inovação, empreendedorismo e tecnologias limpas. Por exemplo, o estudo “Real Savings, Entrepreneurship and Finance: A Monetary Model of Economic Growth” mostra que o banco ao emitir empréstimos, incentivar poupança real e facilitar pagamentos assume papel estrutural para o crescimento.
Essa visão contrasta com o antigo foco em somente alocação de capital entre empresas maduras via mercado acionário.
Monetária e fiscal: repensar o papel do Estado
As teorias como Modern Monetary Theory (MMT) ganharam atenção ao afirmar que governos que emitem sua própria moeda não sofrem as mesmas restrições que famílias ou empresas e que a prioridade pode ser o pleno emprego e a utilização de capacidade ociosa, não apenas controlar déficits.
Contudo, críticos apontam que a fundamentação teórica de MMT ainda enfrenta desafios.
Além disso, os modelos de previsão macroeconômica também estão sendo atualizados para incorporar choques, expectativas financeiras e novos vetores de risco — como em “A New Keynesian Model for Financial Markets”.
Inclusão e democratização de ativos
O novo modelo reconhece que o crescimento e a estabilidade dependem também de acesso ampliado a ativos, crédito e propriedade. Ideias como tokenização de ativos (permitindo fração de propriedade), finanças descentralizadas (DeFi) e ampliação da participação de trabalhadores na propriedade produtiva estão ganhando tração.
Esses mecanismos podem reduzir barreiras de entrada, ampliar poupança coletiva e tornar os mercados de capitais mais acessíveis a pessoas antes excluídas.
Sustentabilidade, riscos e resiliência
Não se trata apenas de crescimento: o novo modelo inclui resiliência frente a riscos ambientais, sociais e financeiros. A interconexão entre mercados financeiros, economia real e meio ambiente exige que modelos levem em conta externalidades, transições tecnológicas, e estruturas de governança que internalizem esses fatores. O movimento “New Economics” aborda essa necessidade de repensar as bases teóricas da economia.
Implicações jornalísticas para o Brasil e o mundo
Para o jornalismo econômico-financeiro, esse novo modelo exige mudanças de foco e abordagem:
Cobertura mais integrada entre finanças, emprego, tecnologia e meio ambiente: não mais finanças isoladas, mas finanças que impulsionam a inovação, o capital humano e a infraestrutura.
Análise de políticas públicas e institucionais: compreender como o Estado (monetário, fiscal, regulatório) molda a finança real e as oportunidades de crescimento.
Acesso e participação: reportar como novas formas de propriedade/participação (tokenização, DeFi, cooperação financeira) impactam comunidades, desigualdades e inclusão.
Riscos sistêmicos e imprevisibilidade: enfatizar que os modelos tradicionais falharam em prever crises recentes, e que a resiliência e adaptação se tornam temas centrais como apontou Bernanke para o caso do Reino Unido. F
No contexto brasileiro, por exemplo, isso pode significar perguntar: como o sistema financeiro apoia a indústria de tecnologias limpas? Como o crédito bancário está sendo direcionado à economia produtiva e não apenas à especulação? Como as novas plataformas financeiras digitais estão ampliando ou limitando o acesso ao capital? Como as políticas monetárias e fiscais internas se alinham (ou não) com o novo modelo global?
Limitações e desafios
A transição para esse novo modelo não é automática: muitos instrumentos, regulamentos e instituições permanecem voltados ao paradigma antigo.
A eficácia de teorias como MMT ainda é debatida: embora ofereça novas perspectivas, há riscos de inflação, má alocação de recursos ou dependência excessiva de crédito público.
A tecnologia financeira (tokenização, DeFi) apresenta riscos regulatórios, de segurança e de exclusão: democratização não significa automaticamente inclusão.
As políticas devem lidar com desigualdades estruturais: se o acesso ao capital continuar concentrado, o novo modelo pode reforçar privilégios em vez de redistribuir.
Brasil
StoneCo (Brasil, região Amazônica)
Nesta iniciativa, a empresa de meios de pagamento StoneCo recebeu financiamento da IDB Invest para expandir crédito a pequenas e médias empresas na região da Amazônia Legal.
Por que é relevante:Leva crédito formal a áreas remotas e vulneráveis, apoiando economia local (agricultura, microempresas, comércio) em vez de apenas financiar grandes corporações.
Voltado especialmente para mulheres empreendedoras, ajudando a diminuir desigualdades regionais e de género.
Aponta para o papel das fintechs e das instituições financeiras na promoção da economia real, e não apenas mercados especulativos.
Tembici e Banco Itaú (São Paulo, micromobilidade)
Um estudo “Micromobilidade e capital financeiro: o caso da Tembici (Banco Itaú) na cidade de São Paulo, Brasil”.
Por que é relevante:A mobilidade urbana (bicicletas, patinetes, sistemas de micromobilidade) recebe apoio financeiro e investimento, conectando finança, inovação e economia urbana.
Demonstra como instituições financeiras participam da transição para serviços urbanos sustentáveis parte da economia real, das pessoas, da infraestrutura.
Índia
Inclusão financeira via tecnologia
No relatório da Ernst & Young (EY) para a Índia: o índice de inclusão financeira subiu para 64,2 (em 2024) de 60,1 no ano anterior.
Importância:Os programas como Pradhan Mantri Jan Dhan Yojana (PMJDY) ajudaram a abrir dezenas de milhões de contas bancárias e integrar pessoas excluídas ao sistema financeiro formal.
Tecnologia (mobile banking, e-KYC) e alfabetização financeira entram como vetores-chave para expandir acesso e uso produtivo da finança.
Microfinanças para MSMEs (Micro, Pequenas e Médias Empresas)
Segundo o artigo “Microfinance as key engine of financial inclusion…”, o setor de microfinanças na Índia já atende cerca de 79 milhões de tomadores de crédito.
Por que importa:Micro e pequenas empresas são diretamente parte da economia real: produção, serviços locais, emprego.
Ajustes regulatórios e expansão de crédito reforçam que a finança pode e está sendo orientada para a economia produtiva.
África
Inclusão financeira digital caso FECECAM‑Benin
Um caso no Benin (África) analisado pela Swiss Capacity Building Facility (SCBF): A FECECAM introduziu serviço de poupança planejada + educação financeira digital, chegou a mais de 45 000 novos clientes; concedeu 10.238 empréstimos. scbf.ch
Relevância:Finanças inclusivas, adaptadas ao baixo rendimento, acesso digital, educação financeira conectam finança com capacidade produtiva ou empreendedora.
Mostra o papel das tecnologias financeiras em regiões que historicamente estavam excluídas, e como isso favorece a economia real (micro-negócios, poupança, empreendedorismo local).
Principais lições e desafios
Lições
A finança a serviço da economia real requer: acesso + produtos adequados + educação + infraestrutura digital.
Instituições financeiras que se voltam para micro/pequenos negócios, comunidades remotas ou tecnologia limpa podem gerar impacto social + econômico.
O papel das políticas públicas, regulação e tecnologia são cruciais: sem eles, o acesso não garante uso produtivo.
Desafios
Mesmo com acesso, o uso produtivo do crédito nem sempre ocorre: risco de endividamento improdutivo ou crédito voltado para consumo.
Educação financeira ainda é um gargalo para que as pessoas usem bem os instrumentos.
Regulação, governança e prevenção de abusos são fundamentais: microfinanças mal reguladas podem gerar vulnerabilidade.
Medir impacto real (crescimento de negócio, emprego, renda) exige dados longos e consistentes.



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