Seja bem-vindo
Pedra Bela,03/02/2026

  • A +
  • A -

Carlos Silva

Novo modelo de economia financeira

Foto de Expect Best
Novo modelo de economia financeira nova economia

O mundo está às vésperas de um novo modelo de economia financeira, em que finanças, tecnologia, políticas públicas e sustentabilidade se entrelaçam de forma inédita. Para os profissionais de jornalismo, isso representa uma oportunidade de reinterpretar a “economia”  não apenas como números de PIB ou taxas de juros, mas como sistema vivo que conecta crédito, investimento produtivo, inovação, bem-estar social e meio ambiente. Se bem abordado, esse modelo pode revelar novos caminhos para inclusão, crescimento e resiliência mas exige vigilância, análise crítica e compreensão das suas complexidades.

Novo modelo de economia financeira: o que muda

O panorama econômico global está em mutação. Diante de desafios como desigualdade crescente, fracasso de previsões macroeconômicas tradicionais, instabilidade financeira e crises ambientais, economistas e formuladores de políticas vêm propondo modelos que rompem com os paradigmas clássicos. Esse novo modelo de economia financeira captura algumas dessas mudanças:

  • A interação entre o setor real (produção, emprego, tecnologia) e o financeiro deixa de ser periférica para tornar-se central.

  • A estrutura e o papel da finança – crédito, bancos, mercados de capitais – são reconhecidos como determinantes do crescimento e da estabilidade, não apenas reflexos.

  • Modelos monetários, fiscais e institucionais são repensados para lidar com contextos de elevada incerteza, shocks múltiplos (pandemia, guerra, clima) e digitalização.

  • Democratização de ativos, novas formas de propriedade e tecnologia financeira (fintech, tokenização, DeFi) entram no horizonte.

Por exemplo, o framework New Structural Financial Economics propõe repensar “o papel da finança em servir a economia real”  ou seja: a finança não existe apenas para especular, mas para impulsionar produção, emprego e inovação.
Outro exemplo é o destaque da Ben Bernanke (ex-governador do Federal Reserve System) para a necessidade de revisão dos modelos macroeconômicos de previsão monetária, diante de falhas evidentes durante a pandemia. 


Componentes centrais do novo modelo

 Finança voltada à economia real

No novo modelo, bancos, mercados de crédito e instrumentos financeiros são projetados para apoiar poupança produtiva, investimento em inovação, empreendedorismo e tecnologias limpas. Por exemplo, o estudo “Real Savings, Entrepreneurship and Finance: A Monetary Model of Economic Growth” mostra que o banco  ao emitir empréstimos, incentivar poupança real e facilitar pagamentos  assume papel estrutural para o crescimento. 
Essa visão contrasta com o antigo foco em somente alocação de capital entre empresas maduras via mercado acionário.

 Monetária e fiscal: repensar o papel do Estado

As teorias como Modern Monetary Theory (MMT) ganharam atenção ao afirmar que governos que emitem sua própria moeda não sofrem as mesmas restrições que famílias ou empresas  e que a prioridade pode ser o pleno emprego e a utilização de capacidade ociosa, não apenas controlar déficits. 
Contudo, críticos apontam que a fundamentação teórica de MMT ainda enfrenta desafios. 
Além disso, os modelos de previsão macroeconômica também estão sendo atualizados para incorporar choques, expectativas financeiras e novos vetores de risco — como em “A New Keynesian Model for Financial Markets”. 

 Inclusão e democratização de ativos

O novo modelo reconhece que o crescimento e a estabilidade dependem também de acesso ampliado a ativos, crédito e propriedade. Ideias como tokenização de ativos (permitindo fração de propriedade), finanças descentralizadas (DeFi) e ampliação da participação de trabalhadores na propriedade produtiva estão ganhando tração. 
Esses mecanismos podem reduzir barreiras de entrada, ampliar poupança coletiva e tornar os mercados de capitais mais acessíveis a pessoas antes excluídas.

 Sustentabilidade, riscos e resiliência

Não se trata apenas de crescimento: o novo modelo inclui resiliência frente a riscos ambientais, sociais e financeiros. A interconexão entre mercados financeiros, economia real e meio ambiente exige que modelos levem em conta externalidades, transições tecnológicas, e estruturas de governança que internalizem esses fatores. O movimento “New Economics” aborda essa necessidade de repensar as bases teóricas da economia. 


Implicações jornalísticas para o Brasil e o mundo

Para o jornalismo econômico-financeiro, esse novo modelo exige mudanças de foco e abordagem:

  • Cobertura mais integrada entre finanças, emprego, tecnologia e meio ambiente: não mais finanças isoladas, mas finanças que impulsionam a inovação, o capital humano e a infraestrutura.

  • Análise de políticas públicas e institucionais: compreender como o Estado (monetário, fiscal, regulatório) molda a finança real e as oportunidades de crescimento.

  • Acesso e participação: reportar como novas formas de propriedade/participação (tokenização, DeFi, cooperação financeira) impactam comunidades, desigualdades e inclusão.

  • Riscos sistêmicos e imprevisibilidade: enfatizar que os modelos tradicionais falharam em prever crises recentes, e que a resiliência e adaptação se tornam temas centrais como apontou Bernanke para o caso do Reino Unido. F

No contexto brasileiro, por exemplo, isso pode significar perguntar: como o sistema financeiro apoia a indústria de tecnologias limpas? Como o crédito bancário está sendo direcionado à economia produtiva e não apenas à especulação? Como as novas plataformas financeiras digitais estão ampliando ou limitando o acesso ao capital? Como as políticas monetárias e fiscais internas se alinham (ou não) com o novo modelo global?


Limitações e desafios

  • A transição para esse novo modelo não é automática: muitos instrumentos, regulamentos e instituições permanecem voltados ao paradigma antigo.

  • A eficácia de teorias como MMT ainda é debatida: embora ofereça novas perspectivas, há riscos de inflação, má alocação de recursos ou dependência excessiva de crédito público. 

  • A tecnologia financeira (tokenização, DeFi) apresenta riscos regulatórios, de segurança e de exclusão: democratização não significa automaticamente inclusão.

  • As políticas devem lidar com desigualdades estruturais: se o acesso ao capital continuar concentrado, o novo modelo pode reforçar privilégios em vez de redistribuir.

    Brasil

    StoneCo (Brasil, região Amazônica)

    Nesta iniciativa, a empresa de meios de pagamento StoneCo recebeu financiamento da IDB Invest para expandir crédito a pequenas e médias empresas na região da Amazônia Legal. 
    Por que é relevante:

    • Leva crédito formal a áreas remotas e vulneráveis, apoiando economia local (agricultura, microempresas, comércio) em vez de apenas financiar grandes corporações.

    • Voltado especialmente para mulheres empreendedoras, ajudando a diminuir desigualdades regionais e de género.

    • Aponta para o papel das fintechs e das instituições financeiras na promoção da economia real, e não apenas mercados especulativos.

    Tembici e Banco Itaú (São Paulo, micromobilidade)

    Um estudo “Micromobilidade e capital financeiro: o caso da Tembici (Banco Itaú) na cidade de São Paulo, Brasil”. 
    Por que é relevante:

    • A mobilidade urbana (bicicletas, patinetes, sistemas de micromobilidade) recebe apoio financeiro e investimento, conectando finança, inovação e economia urbana.

    • Demonstra como instituições financeiras participam da transição para serviços urbanos sustentáveis parte da economia real, das pessoas, da infraestrutura.


    Índia

    Inclusão financeira via tecnologia

    No relatório da Ernst & Young (EY) para a Índia: o índice de inclusão financeira subiu para 64,2 (em 2024) de 60,1 no ano anterior. 
    Importância:

    • Os programas como Pradhan Mantri Jan Dhan Yojana (PMJDY) ajudaram a abrir dezenas de milhões de contas bancárias e integrar pessoas excluídas ao sistema financeiro formal.

    • Tecnologia (mobile banking, e-KYC) e alfabetização financeira entram como vetores-chave para expandir acesso e uso produtivo da finança.

    Microfinanças para MSMEs (Micro, Pequenas e Médias Empresas)

    Segundo o artigo “Microfinance as key engine of financial inclusion…”, o setor de microfinanças na Índia já atende cerca de 79 milhões de tomadores de crédito.  
    Por que importa:

    • Micro e pequenas empresas são diretamente parte da economia real: produção, serviços locais, emprego.

    • Ajustes regulatórios e expansão de crédito reforçam que a finança pode e está sendo orientada para a economia produtiva.


     África

    Inclusão financeira digital caso FECECAM‑Benin

    Um caso no Benin (África) analisado pela Swiss Capacity Building Facility (SCBF): A FECECAM introduziu serviço de poupança planejada + educação financeira digital, chegou a mais de 45 000 novos clientes; concedeu 10.238 empréstimos. scbf.ch
    Relevância:

    • Finanças inclusivas, adaptadas ao baixo rendimento, acesso digital, educação financeira conectam finança com capacidade produtiva ou empreendedora.

    • Mostra o papel das tecnologias financeiras em regiões que historicamente estavam excluídas, e como isso favorece a economia real (micro-negócios, poupança, empreendedorismo local).


    Principais lições e desafios

    Lições

    • A finança a serviço da economia real requer: acesso + produtos adequados + educação + infraestrutura digital.

    • Instituições financeiras que se voltam para micro/pequenos negócios, comunidades remotas ou tecnologia limpa podem gerar impacto social + econômico.

    • O papel das políticas públicas, regulação e tecnologia são cruciais: sem eles, o acesso não garante uso produtivo.

    Desafios

    • Mesmo com acesso, o uso produtivo do crédito nem sempre ocorre: risco de endividamento improdutivo ou crédito voltado para consumo.

    • Educação financeira ainda é um gargalo para que as pessoas usem bem os instrumentos.

    • Regulação, governança e prevenção de abusos são fundamentais: microfinanças mal reguladas podem gerar vulnerabilidade.

    • Medir impacto real (crescimento de negócio, emprego, renda) exige dados longos e consistentes.




COMENTÁRIOS

LEIA TAMBÉM

Buscar

Alterar Local

Anuncie Aqui

Escolha abaixo onde deseja anunciar.

Efetue o Login

Recuperar Senha

Baixe o Nosso Aplicativo!

Tenha todas as novidades na palma da sua mão.