Monica Vernechi
Sul do Brasil: riqueza crescendo, mas a política insiste em estagnar
Sul do Brasil: riqueza crescendo, mas a política insiste em estagnar
O Sul do Brasil vive uma dupla condição: é, ao mesmo tempo, uma potência econômica e um terreno fértil para instabilidades políticas e riscos climáticos. O crescimento é real, mas desigual; a riqueza existe, mas precisa de políticas mais equânimes e um planejamento estratégico para se consolidar de forma sustentável.
Se os líderes regionais realmente querem que o Sul exerça seu potencial sem depender de crises, será necessário menos retórica separatista e mais ação concreta especialmente em logística, justiça fiscal e resiliência ambiental. Caso contrário, todo esse impulso econômico pode se dissipar no vento, e a visão de uma “região rica e autônoma” acabará sendo tão utópica quanto perigosa.
A região Sul ,formada por Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, sempre foi vista como um dos motores econômicos do Brasil. E não é para menos: juntos, os estados respondem hoje por cerca de 17% do PIB nacional, segundo levantamento recente.
Mas esse protagonismo econômico convive com tensões políticas e fragilidades estruturais que ameaçam tornar o Sul um gigante de pés de barro, sobretudo em um contexto de desigualdade de repasses federais, crises climáticas e gargalos logísticos.
Crescimento econômico real, mas desigual
Os números mais recentes mostram que o Sul voltou a dar sinais de fôlego. No primeiro semestre de 2025, o PIB da região cresceu 3,5%, segundo dados da FGV IBRE bem acima da média nacional. Isso revela que, apesar dos desafios, a economia do Sul não estagnou: indústria e serviços puxaram esse avanço.
Particularmente em Santa Catarina, o crescimento vem sendo consistente. Um estudo da própria FGV aponta que entre 2001 e 2024 o estado teve expansão média de 2,5% ao ano, superando Paraná (2,2%) e Rio Grande do Sul (1,5%). Por outro lado, essa prosperidade se dá em meio a uma crítica persistente: segundo reportagens, apenas 21% do que a região arrecada retorna via repasses federais ou investimentos, o que coloca em xeque a justiça fiscal.
Dependência do agronegócio e a crise camuflada
É inegável: o agronegócio continua sendo pilar do Sul, especialmente no Rio Grande do Sul. No primeiro trimestre de 2025, a agropecuária nacional registrou crescimento forte, reflexo de uma safra recorde mas, no RS, essa bonança esconde fragilidades. Produtores gaúchos enfrentaram uma crise severa: estiagem prolongada, prejuízos bilionários e infraestrutura precária para escoamento. Essa é uma região que lucra com o campo, mas paga caro quando a natureza ou a logística falha.
Além disso, a infraestrutura para escoamento da produção segue sendo gargalo. Apesar de planos em curso para melhorar o transporte e a logística nos estados do Sul envolvendo a empresa pública Infra S.A. para destravar projetos até 2050, a execução ainda é incerta.
Choques climáticos e risco político
A tensão entre política e economia no Sul também vem de choques ambientais. As enchentes que devastaram partes do Rio Grande do Sul em 2024 deixaram marcas profundas, mas o estado afirmou uma recuperação econômica: o Boletim de Conjuntura estima crescimento de 4,9% no acumulado do ano. Ainda assim, a vulnerabilidade climática faz parte da agenda política regional e nacional, e deve pesar nas próximas eleições e na alocação de recursos.
Por outro lado, a crise política manifesta-se em discursos separatistas. Há vozes que questionam até se o Sul “conseguiria viver sem o Brasil”: e, apesar de os números do PIB impressionarem, analistas alertam que a autonomia plena esbarra em dependências estruturais e na necessidade de políticas federais eficientes. Esse tipo de narrativa pode inflamar polarizações, mas também mascara problemas mais concretos como desigualdades internas entre os estados da região ou a baixa devolução de receita.
Uma economia sofisticada, mas com riscos estratégicos
É válido reconhecer outro ponto: a região Sul não é só agronegócio. Santa Catarina, por exemplo, tem se destacado pela combinação entre indústria tradicional e inovação tecnológica, com empresas de peso e diversificação nos setores. Essa complexidade produtiva pode ser uma vantagem para resistir a choques mas exige governança política madura, investimento em infraestrutura e políticas de longo prazo.
No entanto, a dependência de exportações básicas e a exposição a choques climáticos permanecem como riscos políticos e econômicos. A ideia de independência regional, tão presente em discursos mais radicais, ignora que sem uma rede nacional eficiente e cooperação federativa, o Sul dificilmente sustentaria seu peso econômico sozinho.
Por Mônica Vernechi



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