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Pedra Bela,03/02/2026

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Maude Salazar

O TIRANO INTERIOR


O TIRANO INTERIOR

O TIRANO INTERIOR
Por Maude Salazar

Há uma voz que caminha conosco como uma sombra antiga. Não grita, mas insiste. Vive repetindo o eu tenho que como se a vida fosse uma corrida sem linha de chegada, como se cada gesto tivesse que provar o nosso valor diante de um tribunal invisível. Essa voz cria listas intermináveis, exige perfeição, promete paz e entrega apenas cansaço. E o mais curioso é que fomos nós mesmas que a ensinamos a falar assim.

Acordamos e já estamos em dívida. Vamos dormir e seguimos devendo. É um ciclo de cobrança sutil que suga o brilho do dia. A mente acha que está resolvendo tudo, mas só alimenta a tensão. Justificativas, explicações, racionalizações… parecem movimento, mas são roda girando no mesmo lugar.

A virada acontece quando entendemos que existe outro caminho. Em vez de eu tenho que, começamos a perguntar: eu tenho motivos para? É uma troca pequena no som e imensa na alma. A obrigação pesa, o propósito respira. A obrigação aperta, o motivo abre espaço. A obrigação exige, o propósito acolhe.

Quando dizemos eu tenho que ignoramos nossa energia, nosso corpo, nossa verdade. Viramos máquinas de cumprir demandas que nem sempre são nossas. E isso, devagarinho, rouba o nosso valor próprio. O efeito é conhecido: ansiedade, desânimo, exaustão. Os relacionamentos ficam frágeis. O prazer escapa pelos dedos. O corpo começa a cobrar o preço daquilo que a alma já vem avisando.

E o mais triste é quando nossas conquistas viram cárcere. Lutamos, desejamos, alcançamos… e logo depois surge a sentença. Agora preciso manter. Agora não posso falhar. O que era alegria vira peso. O que era conquista vira dever. É um modo silencioso de desperdiçar a própria vida.

Mas existe uma saída. Sempre existe.
Ela se chama autoconsideração.

Autoconsideração é um nome delicado para um gesto simples: ser honesta consigo. É reconhecer limites sem se julgar. É escutar o corpo sem tentar calá-lo. É admitir o que realmente sentimos, sem culpa. É, no fundo, uma forma de maturidade amorosa.

E essa honestidade muda tudo.
Porque a verdadeira escolha nunca é fazer ou não fazer.
A verdadeira escolha é continuar se torturando ou se dar paz.

Vamos imaginar uma coisa simples. A porta de casa está quebrada. Você não tem energia para consertar hoje. No caminho antigo, você passa o dia inteiro se culpando. No caminho novo, você respira fundo e diz: hoje não tenho energia para isso e eu me permito descansar. De repente, o peso cai. A vida volta a caber na palma da mão.

A mensagem final é simples, mas exige coragem.
O sofrimento é uma opção.
Não uma regra.
Não um destino.
Uma escolha que fazemos ali, no miolo mais íntimo da mente.
E se é uma escolha, podemos escolher diferente.

Que você faça essa escolha com delicadeza.
Que respire.
Que se escute.
Que se dê paz.

PRECE PARA SI
Que eu me trate com doçura, mesmo quando o dia exigir dureza.
Que eu me escute sem pressa, mesmo quando a mente quiser atropelar.
Que eu respeite meus limites, mesmo quando o mundo pedir excesso.
Que eu me acolha inteira, com luzes, sombras, pausas e retomadas.
Que eu seja minha própria casa, minha própria calma, meu próprio chão.

AUTO-BENÇÃO
Eu me abençoo.
Abençoo o que sou e o que ainda estou aprendendo a ser.
Abençoo meu corpo cansado, minhas emoções desalinhadas, minhas tentativas imperfeitas.
Abençoo minhas pausas e meus recomeços.
Eu me abençoo porque viver é sagrado e eu também sou.

MINI BIO
A voz de Maude Salazar atravessa palcos, páginas e rituais há mais de três décadas. Soprano lírico, escritora e pesquisadora, construiu uma obra onde música, palavra e silêncio se entrelaçam. Suas criações tratam a voz como instrumento, linguagem e lugar de cura, unindo canto, psicanálise e tradições orais em experiências que não são apenas leitura, mas vivência.





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