Maude Salazar
ABRIGO
quando o silêncio também é um gesto de amor
ABRIGO: quando o silêncio também é um gesto de amor
Por Maúde Salazar
Há um quarto em nós que o mundo insiste em chamar de escuro.
Mas ele não é ausência de luz.
É escolha de sombra.
Aprendemos cedo a confundir proteção com fraqueza. A acreditar que sentir menos é maturidade, que aguentar tudo é força, que abrir sempre as janelas é coragem. Mas existe uma outra sabedoria, mais antiga e mais delicada: a de fechar a porta quando dói.
Nem tudo em nós quer ser herói.
E isso é um alívio.
O abrigo não nasce do medo. Nasce da escuta. É o lugar interno onde o corpo pode repousar antes de adoecer, onde o afeto se recolhe para não se despedaçar, onde o silêncio não é punição, mas cuidado. Há emoções que não pedem palco. Pedem tempo. Pedem um quarto sem luz acesa.
Para Carl Gustav Jung, aquilo que não encontra espaço consciente não desaparece. Retorna. Mas retorna como sintoma, como repetição, como cansaço da alma. Por isso, a sombra não é inimiga. É parte viva da psique pedindo acolhimento. Iluminar tudo de uma vez pode ser tão violento quanto ignorar.
Fazer abrigo é oferecer um território interno onde o que ainda não pode ser visto em plena luz possa descansar sem ser reprimido.
Guardar o que se sente sem julgar é um gesto raro. Num mundo que exige resposta imediata, opinião constante e exposição permanente, fazer abrigo é um ato de resistência. É recusar a violência da pressa. É reconhecer que há coisas em nós que querem ficar. E que não precisam ser explicadas agora.
Já Jacques Lacan nos lembra que nem tudo o que nos atravessa pode ser simbolizado de imediato. Há afetos que chegam primeiro como sensação, como aperto, como silêncio. Antes da palavra, existe o corpo. Forçar a fala antes do tempo não produz clareza. Produz ferida.
Respeitar o ritmo da inscrição psíquica é aceitar que algumas experiências precisam amadurecer antes de virar linguagem. Que o silêncio, às vezes, é pré-linguagem. Um intervalo necessário entre sentir e dizer.
Conter-se, então, não é negar o desejo.
É protegê-lo enquanto ele ainda aprende a forma.
Quando a luz vier, que venha mansa. Sem invadir. Sem queimar. Que bata à porta como quem reconhece que ali existe uma casa. Porque maturidade emocional não é viver escancarado. É discernimento. É saber quando abrir e quando fechar.
O abrigo não nos afasta do mundo. Ele nos devolve inteiros.
E só quem aprende a morar em si mesmo consegue, um dia, encontrar o outro sem se perder.
Talvez seja por isso que Abrigo nasce como canção e não como explicação.
Porque há coisas que só a música consegue dizer sem ferir.
A canção não ilumina o quarto de repente. Ela respeita a penumbra. Caminha devagar pelo silêncio, aprende a respirar com ele, e só então oferece som. Não para invadir, mas para acompanhar.
Cantar, aqui, é um gesto de cuidado.
É sustentar o intervalo entre sentir e dizer.
É confiar que a palavra chega quando o corpo está pronto.
Talvez crescer seja isso:
transformar a própria interioridade
num lugar habitável
onde a sombra descansa
e a luz aprende a pedir licença.
Este texto termina em música.
A canção Abrigo está ao final. Ouça, e se sentir vontade, cante. Cantar também é um jeito de cuidar.
Maúde Salazar é soprano lírico, escritora e pesquisadora, formada em música. É doutoranda em teologia e psicanálise, com pesquisas voltadas à voz, à escuta e aos processos de subjetivação. Desenvolve trabalhos que integram música, escrita e reflexão psíquica, tratando o canto como gesto de cuidado e território de abrigo.



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