Maude Salazar
Se permita com a vida
EU ME PERMITO A TUDO
Se permita com a vida
Por Maúde Salazar
Há um momento na vida em que a gente cansa de sobreviver em estado de alerta.
Cansa de justificar escolhas, de pedir licença para sentir, de se explicar por mudar de ideia.
É aí que nasce uma frase simples, mas funda como raiz:
eu me permito.
Permitir-se não é descontrole.
Não é excesso.
Não é irresponsabilidade emocional, como nos ensinaram a temer.
Permitir-se é, antes de tudo, um gesto de permanência.
Ficar.
Ficar consigo.
Ficar quando tudo em volta pede fuga.
A gente aprende cedo a se abandonar.
Abandona o corpo quando ele pede descanso.
Abandona a intuição quando ela não cabe no plano.
Abandona o coração para caber nas expectativas alheias.
Depois chama isso de maturidade, quando muitas vezes é só medo bem treinado.
Mas chega um tempo em que o corpo cobra.
A respiração encurta.
O peito pesa.
E a alma começa a pedir outra coisa, mais simples e mais difícil ao mesmo tempo: presença.
Se permitir com a vida é aceitar que errar faz parte do caminho, não do fracasso.
É entender que há estradas que só aparecem quando a gente anda, mesmo tremendo.
É reconhecer que viver só de certeza deixa a paisagem estreita demais para quem precisa respirar fundo.
Existe uma coragem que não é barulhenta.
Ela não levanta bandeiras, não bate no peito.
Ela apenas continua.
Mesmo com medo.
Mesmo sem garantia.
Mesmo sem aplauso.
Se permitir é escolher limites que não machucam o próprio chão.
É dizer sim ao que sustenta e não ao que nos esvazia, ainda que venha disfarçado de obrigação, amor ou sucesso.
É aprender que liberdade não é ir longe a qualquer custo, mas não se trair no percurso.
E talvez o maior aprendizado seja esse:
ficar consigo não é solidão.
É abrigo.
Quem se permite por inteiro não deve nada a ninguém porque já fez as pazes com a própria presença.
Não vive para provar.
Vive para habitar.
Respira.
E se permita com a vida.
Do jeito que ela vem.
Do jeito que você é.
Ao final desse caminho de palavras, fica um convite de escuta.
Se puder, escute a música que foi criada a partir deste texto.
A letra não me pertence, mas a melodia nasceu como resposta sensível a ela.
Como quem lê em silêncio e depois deixa o som dizer o que o corpo já entendeu.
Coloque a música para tocar sem pressa.
Não para analisar, nem para explicar.
Apenas para sentir como as notas conversam com as palavras,
como a música acolhe o que o texto sussurra.
Que essa escuta seja um gesto de permissão.
Um descanso breve no meio do dia.
Um lembrete suave de que às vezes não é preciso dizer mais nada
basta ouvir e ficar.
Maúde Salazar é soprano lírico, escritora e pesquisadora da escuta. Sua trajetória atravessa a música, a palavra e o silêncio como territórios de criação e cuidado. Desenvolve trabalhos em que a voz deixa de ser apenas técnica para se tornar presença, rito e linguagem sensível. Entre concertos, livros, canções e textos, Maúde investiga a arte como espaço de consciência, abrigo e reconexão com o que é essencial.



COMENTÁRIOS