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Pedra Bela,03/02/2026

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Marilu Gomes

Movimentos afro-brasileiros no Carnaval: entre a celebração da negritude e a insistência do racismo estrutural

Foto de Ylanite Koppens
Movimentos afro-brasileiros no Carnaval: entre a celebração da negritude e a insistência do racismo estrutural

Às vésperas de mais um Carnaval, os movimentos afro-brasileiros entram na avenida com um duplo desafio: celebrar a potência criativa negra que sustenta a maior festa popular do país e, ao mesmo tempo, enfrentar um racismo que continua atravessando corpos, narrativas e estruturas de poder. Não há Carnaval sem a cultura negra, mas ainda há muito Carnaval sem reconhecimento e essa contradição segue no centro do debate.

Historicamente, o samba, os blocos de rua, os terreiros de matriz africana e as baterias de escola são expressões diretas da diáspora africana no Brasil. Segundo o historiador Nei Lopes e pesquisas do Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil (CPDOC/FGV), o Carnaval moderno se consolidou a partir de práticas negras criminalizadas no fim do século XIX e início do XX, como o samba de partido-alto e os cordões de rua, perseguidos pela polícia sob o pretexto de “vadiagem” e “desordem”.

Hoje, porém, o cenário é outro, ao menos na superfície. Escolas de samba do Rio e de São Paulo desfilam enredos que exaltam a ancestralidade africana, blocos afro como Ilê Aiyê, Olodum, Malê Debalê e Cortejo Afro seguem como referências internacionais de resistência estética e política, e movimentos culturais nas periferias – como a cena do samba, do pagode, do funk e dos blocos de Pretos, assumem o protagonismo do Carnaval de rua.

A pergunta incômoda é: essa visibilidade equivale a superação do racismo?

A potência dos movimentos afro no Carnaval

Nos últimos anos, é inegável o avanço de uma agenda antirracista dentro da própria festa. Em diversos carnavais, escolas de samba e blocos afro têm:

  • colocado em destaque personagens negros apagados da história oficial;
  • denunciado o genocídio da juventude negra, a violência policial e o encarceramento em massa;
  • problematizado o racismo religioso contra religiões de matriz africana;
  • reivindicado protagonismo não só no desfile, mas também na gestão dos recursos, na escolha de enredos e na ocupação de espaços de decisão.

Desfiles como o da Mangueira em 2019, com o enredo “História para ninar gente grande”, e apresentações de blocos afro na Bahia e em outros estados, são exemplos emblemáticos de uma virada de chave: a festa deixa de ser apenas entretenimento e assume, com mais clareza, o papel de instrumento político de afirmação racial.

Pesquisadores como Kabengele Munanga (USP) e Sueli Carneiro (Geledés – Instituto da Mulher Negra) vêm apontando que a cultura é um dos principais campos de disputa simbólica no combate ao racismo. No Carnaval, essa disputa é direta: quem conta a história? Quem lucra com a festa? Quem é aplaudido e quem é revistado na entrada do sambódromo?

O racismo que não sai da avenida

Apesar do discurso “democrático” do Carnaval, o racismo estrutural continua se impondo de formas menos espetaculares, porém constantes:

  • A maioria dos trabalhadores que fazem o Carnaval acontecer costureiras, ferreiros, ritmistas, varredores, seguranças, ambulantes é Preta, mas raramente ocupa cargos de direção ou aparece nas campanhas publicitárias.
  • As marcas que lucram com a festa ainda preferem, em muitos casos, um padrão estético embranquecido, especialmente em peças de divulgação nacional, como apontam análises de representatividade feitas por organizações como o Instituto Identidades do Brasil (ID_BR).
  • Jovens Pretos continuam sendo os principais alvos de abordagens policiais em blocos e circuitos de rua, conforme apontam relatórios de entidades de direitos humanos e dados de ouvidorias de polícia.
  • As escolas de samba, mesmo sendo territórios majoritariamente Pretos, muitas vezes se veem pressionadas por interesses econômicos e políticos que nem sempre dialogam com a pauta antirracista de suas comunidades.

O mito da “democracia racial”, amplamente criticado por autores como Lélia Gonzalez e Abdias Nascimento – ainda resiste na ideia de que, no Carnaval, “todo mundo é igual”. Não é. A cor da pele ainda define quem está no camarote VIP e quem está na fila da revista; quem é confundido com “folião animado” e quem é visto como “suspeito”.

O que se espera deste Carnaval em relação ao racismo

Diante desse quadro, os movimentos afro-brasileiros não esperam milagres de um Carnaval para outro. O que se coloca como expectativa; e também como cobrança; é um conjunto de mudanças concretas:

  1. Enredos antirracistas com consequência prática
    Não basta exaltar heróis negros na avenida e, no dia seguinte, manter estruturas internas racistas. Espera-se que escolas, blocos e empresas ligadas ao Carnaval:

    • adotem políticas de diversidade racial em suas diretorias;
    • priorizem contratação de profissionais negros também em cargos de criação, comunicação e gestão;
    • garantam que parte dos recursos movimentados pela festa retorne de forma estruturante para as comunidades negras que a sustentam.
  2. Compromisso real das marcas e patrocinadores
    A apropriação estética da negritude sem compromisso político  o chamado “blackwashing”  é um risco constante. Grifes, bancos, plataformas digitais e grandes patrocinadores que usam imagens de corpos negros em campanhas de Carnaval precisam:

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