Monica Vernechi
2026: O Ano em que a Política Internacional Repensa a Ordem Global
Por nossa equipe de análises políticas internacionais
Monica Vernechi
Jornalísta
A cena geopolítica de 2026 está marcada por rupturas inéditas, tensões crescentes e sinais de uma nova configuração das relações entre grandes potências e atores regionais. Mais do que nunca, decisões tomadas nas capitais do mundo reverberam em eleições, economias e segurança global.
A ofensiva dos Estados Unidos na Venezuela: um precedente perigoso?
No começo de janeiro de 2026, uma ação militar dos Estados Unidos culminou na captura do presidente venezuelano Nicolás Maduro um episódio que dividiu aliados internacionais e reacendeu debates sobre soberania e intervencionismo. A justificativa oficial de Washington foi a necessidade de combater narcotráfico e autoritarismo, mas críticos veem a manobra como um precedente perigoso na política externa americana. Países como França e membros do Conselho de Segurança da ONU condenaram a operação, alegando violação do direito internacional.
Essa intervenção não é apenas uma questão diplomática: ela acende a preocupação de que grandes potências estejam dispostas a redefinir fronteiras e governos sob pretextos estratégicos, sob risco de desestabilizar ainda mais regiões já fragilizadas. Será que o fim de um regime justifica a erosão de normas que sustentam o sistema internacional desde a Segunda Guerra Mundial?
A nova “crise de legitimidade” das instituições globais
Simbolicamente, o alerta mais contundente sobre a deterioração das estruturas internacionais veio quando o Doomsday Clock, o Relógio do Juízo Final, foi ajustado para 85 segundos antes da meia-noite, o mais próximo da catástrofe desde a sua criação. A razão? A combinação de tensões nucleares entre grandes potências, conflitos prolongados e a erosão de tratados que limitavam armas estratégicas.
Esse movimento é o espelho de um mundo em que cooperação e diplomacia multilateral estão cedendo espaço à competição geopolítica aberta um cenário que parece desafiar o espírito das instituições que emergiram no pós-guerra.
Reconfiguração de alianças e o papel de atores emergentes
A relação entre União Europeia e China também está em um ponto de virada. Após as eleições europeias de 2024, forças mais diversas incluindo partidos conservadores e de direita ganharam influência, criando um equilíbrio mais delicado entre cooperação e competição com Pequim.
Esse realinhamento pode levar a uma política externa mais assertiva da UE, com foco em autonomia estratégica e segurança tecnológica mas também agrava tensões em setores como comércio, tecnologia e investimentos.
Irã, protestos e o questionamento da legitimidade do poder
Enquanto grandes potências recalibram suas estratégias, a crise interna no Irã continua a desafiar o regime teocrático, com protestos significativos contra a repressão e debates sobre mudança de liderança. Observadores internacionais veem isso como um sinal de que até regimes mais consolidados podem enfrentar rupturas internas que têm reflexos externos, afetando a estabilidade regional no Oriente Médio.
Eleições na Ásia e o teste global à democracia
No início de 2026, importantes eleições gerais ocorreram em países como Bangladesh, palco de choques políticos e preocupações com a transparência do processo eleitoral. Observadores e organizações internacionais classificaram o pleito como um teste à resiliência democrática num momento em que eleições em várias partes do mundo são pressionadas por polarização e repressão.
Reflexos no Brasil: mais do que espectador
Embora muitos desses eventos ocorram fora do Brasil, suas implicações são diretas. Especialistas brasileiros já alertaram que a instabilidade global tende a influenciar o ambiente político interno, especialmente em ano eleitoral. Pressões sobre políticas econômicas, segurança regional e relações com blocos como G7 e BRICS serão temas inevitáveis nos debates eleitorais brasileiros.
Opinião Editorial: Entre a Ordem e o Caos
O ano de 2026 expõe uma lógica inquietante: a ordem global não está apenas mudando de mãos ela está sendo contestada em suas bases. Intervenções militares, conflitos duradouros, pressões sobre instituições multilaterais e eleições sob suspeita colocam em xeque não só governos específicos, mas o próprio contrato internacional que rege relações entre Estados soberanos.
Nesse contexto de incerteza, o Brasil enfrenta o desafio de definir uma política externa que seja pragmática sem abrir mão de princípios democráticos, e que defenda seus interesses econômicos sem se alienar de parceiros essenciais.
O mundo que emerge é simultaneamente mais complexo e mais perigoso não pela ausência de regras, mas pela sua flexível interpretação por potências que buscam vantagem estratégica em cada crise.



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