Crônica: Dia das crianças
Hoje é o dia de ver o Brasil se vestir de cores alegres e risadas contagiantes. O dia de celebrar a data dedicada às crianças.
Hoje veremos crianças ganhando presentes do mais caro ao mais simples. Do iPhone 15 Pro Max a uma bala de 25 centavos. Presentes que, por um instante mágico, farão os olhos dos pequenos brilharem como as estrelas do céu de Neverland, a terra onde Peter Pan e a Sininho vivem sem crescer.
Hoje veremos crianças rindo, outras chorando (quem sabe porque o brinquedo desejado não veio, ou a briga pela última fatia de bolo). Crianças pulando, comendo doces e se alegrando. O coração até fica quentinho com isso. Terão aquelas festas de bairro, de igreja e terreiros. Tudo para festejar essa data tão inocente, um respiro na rotina. A nossa criança interior se alegra junto, aquela que ainda lembra do mundo com a pureza e a curiosidade do pequeno Mowgli da selva.
Mas, enquanto a festa acontece, o espelho da sociedade reflete uma imagem quebrada, uma realidade que teima em não respeitar a essência do que a infância deveria ser: um tempo de proteção, descoberta e leveza. É fácil celebrar o 12 de outubro com Mickey e Minnie estampados nas camisas, ou com a Elsa de "Frozen" cantando sobre liberdade. O difícil é sustentar esse espírito de cuidado e proteção nos 364 dias restantes do ano.
Nós enchemos os armários de bonecas e carrinhos, mas permitimos que o medo encha a alma de quem está apenas começando a viver. Queremos que nossos filhos sejam tão corajosos quanto a Moana desbravando o oceano, mas falhamos em limpar as águas turvas de um mundo adulto que os atinge cedo demais.
Que possamos dar a elas um futuro digno. Que a Maria, a Valentina, a Clara, o Enzo, o João e tantas outras crianças não entrem nas estatísticas de mais de 83.000 crianças abusadas sexualmente, conforme dados sombrios que insistem em macular a inocência. Que a fragilidade dos pequenos não seja sinônimo de vulnerabilidade. Que o direito de ser criança não seja apenas uma cláusula de lei, mas uma prática diária.
Que possamos dar a elas não só presentes, mas a presença. Não apenas doces, mas a doçura de um ambiente seguro. Que possamos dar a elas amor, zelo, mas acima de tudo: RESPEITO.
Respeito à infância, à inocência, ao tempo delas. Que as festividades de hoje sejam um pacto renovado, um juramento de que protegeremos o sorriso mais puro do planeta. Pois o presente mais caro que podemos dar a uma criança é a garantia de que ela possa viver, brincar e sonhar sem medo, como deve ser, sem pressa de virar adulto e sem a dor de ter a sua alma partida.
Que assim seja. Feliz Dia das Crianças – e que a celebração não termine ao fim do dia.




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