O Vazio da Cadeira Vaga
O domingo
tem um cheiro peculiar, não é? Um aroma que mistura café coado tardio, talvez
um tempero de alho e cebola que anuncia o almoço sem pressa e aquele cheiro
agridoce de tempo que passa e não volta. Por muito tempo, esse cheiro foi
sinônimo de casa cheia. A casa dos pais, dos avós, era o epicentro onde todas
as órbitas familiares convergiam.
A mesa se estendia, improvisada com tábuas e
cavaletes, para caber tios, primos, os agregados de última hora. As crianças
corriam, transformando tapetes em campos de futebol improvisados. A
disputa pelo banco mais confortável era acirrada e a gente mal ouvia a voz da
avó por cima das risadas e dos debates sobre futebol ou política. Era um caos
bendito, a prova palpável de que pertencíamos a algo grande e barulhento.
Mas, como a
força centrífuga da vida, os filhos cresceram e foram arremessados para longe.
Criaram suas próprias órbitas, seus próprios calendários, suas próprias
urgências. O trabalho, a escola dos netos, o trânsito da volta, o cansaço
acumulado da semana — tudo se tornou prioridade. O domingo, de sagrado ritual
familiar, virou um dia de logística, de "colocar a vida em dia", de
exaustão planejada.
A casa dos
pais, antes um porto seguro, transformou-se numa ilha visitada por voos cada
vez mais raros. A mesa diminuiu. As cadeiras, antes insuficientes, agora
sobram, formando um círculo constrangedor de espaço vazio.
O pior é a
promessa. Ah, a promessa vazia que a gente faz para si e para os outros.
"Preciso ligar para o Tio João", "Vou visitar o primo que se
mudou para longe", "Na semana que vem, sem falta, passo lá na casa da
tia”. O tempo, porém, tem a mania cruel de nos desmentir. A gente adia o
telefonema, a visita, o reencontro simples e despretensioso. Acreditamos
piamente que haverá outro domingo, outro mês, outra oportunidade.
Até que a
oportunidade se esgota.
O primo
querido, aquele com quem você prometeu tomar um chimarrão ou rever fotos
antigas, a gente só volta a encontrar no silêncio solene de um velório. Ali,
diante da urna, é que o peso da promessa não cumprida se abate com uma força
lancinante. O adeus final não é apenas à pessoa que se foi, mas ao tempo que
poderíamos ter dedicado, à palavra que não dissemos, ao abraço que adiamos. É o
epitáfio não escrito de uma relação que foi engolida pelas
"prioridades".
E assim, o
domingo de cheiro farto e barulhento se recolhe. Resta o silêncio ecoante das
cadeiras vazias, o sabor agridoce do café solitário. Resta a certeza de que a
vida adulta é, muitas vezes, a arte de colecionar saudades de quem ainda está
vivo, e a amarga lição de que o último adeus é dado, quase sempre, quando já
não há mais nada a fazer. O domingo é, hoje, um lembrete melancólico do quanto
o mais comum se tornou raro: a simplicidade de apenas estar.




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