Maestra Lígia Amadio: ética em defesa dos músicos ou risco calculado?
Maestra Lígia Amadio: ética em defesa dos músicos ou risco calculado?
A recente demissão da maestra Lígia Amadio da Orquestra Sinfônica de Minas Gerais (OSMG) abriu um debate que vai muito além da música erudita: trata-se de ética, responsabilidade institucional e o papel de um líder artístico diante da precarização do trabalho cultural no Brasil.
Em novembro de 2025, durante uma audiência pública na Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG), Amadio não apenas regia notas musicais, mas vocabulos políticos e sociais ao denunciar publicamente os salários insuficientes pagos aos músicos que compõem seu corpo artístico. Ela afirmou que a orquestra era “a mais mal paga deste país”, citando valores como R$ 1.618,72 por mês para músicos iniciantes o que equivaleria a cerca de R$ 66 por dia de trabalho e criticou com veemência a falta de valorização profissional no setor.
A reação institucional veio cerca de um mês depois: a Fundação Clóvis Salgado (FCS), que administra a orquestra, optou por encerrar o contrato de Amadio sob a justificativa de que a temporada de 2026 exigiria “regentes de renome nacional” para marcar o aniversário de 50 anos da orquestra.
Mas a pergunta que pesa é outra: até que ponto Lígia Amadio deveria se envolver publicamente nos problemas sociais dos músicos sob sua direção? Se por um lado há um consenso entre artistas e entidades de classe de que sua fala foi um gesto de liderança genuína no Femusc, por exemplo, músicos protestaram em sua defesa e destacaram seu compromisso com dignidade e justiça salarial, chegando a ler cartas emocionadas em público, por outro lado, críticos argumentam que sua postura ultrapassou os limites esperados de conduta institucional em um cargo artístico vinculado a uma entidade pública.
Do ponto de vista ético, Amadio colocou em evidência uma realidade que muitos músicos enfrentam: formação longa e exigente, dedicação intensa, mas remuneração frequentemente aquém de uma vida digna. Defender isso é, para muitos, mais do que legítimo é uma postura que une arte e compromisso social. No entanto, questionadores poderiam argumentar que uma regente titular de uma orquestra vinculada a um órgão público precisa equilibrar sua defesa por melhores condições com diplomacia institucional, buscando alianças e negociações que não coloquem em risco seu próprio cargo e o funcionamento da instituição.
A demissão, então, levanta outro ponto: qual é, de fato, o custo da crítica quando ela atinge estruturas de poder? A Fundação alegou que sua decisão não estava relacionada ao conteúdo da crítica, mas sim a um projeto artístico para a temporada comemorativa. Mas a contradição logo foi apontada por músicos e sindicalistas: como justificar uma “falta de recursos” para manter a regente que elevou a qualidade artística da orquestra enquanto se anuncia uma programação extensa para o mesmo ano?
A história de Amadio a única mulher a comandar a OSMG em seus 50 anos de existência também carrega uma dimensão simbólica importante. Sua demissão num momento em que se celebra a diversidade e a inclusão artística envia uma mensagem ambígua: até que ponto instituições culturais estão dispostas a ouvir críticas internas e promover mudanças? A resposta, infelizmente, parece ainda depender mais de interesses administrativos do que de uma ética de diálogo e valorização humana.
No fim das contas, a postura de Amadio representa um choque entre duas éticas legítimas: a de quem defende com coragem seus pares e a de quem precisa gerir, com cautela, uma instituição pública complexa. A dificuldade está em encontrar um meio-termo em que a defesa de direitos especialmente em um país onde a arte muitas vezes é deixada à margem não termine em punição ou exclusão. A demissão de um nome tão respeitado pode ser, paradoxalmente, um sinal de que o desafio ético maior no Brasil hoje não é apenas fazer arte, mas sustentar condições justas para que ela exista.
por Sonia Mathias
Jornalista




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