A pessoa que não sobreviveu
Quinze anos.
A vida insiste em seguir a curva do tempo, mas o coração dela permanece ancorado naquele dia. O calendário, teimoso, lhe devolve a lembrança de 1º de novembro de 2010. Não importa o quanto o tempo passe, ela sempre lembra daquela terça-feira; o que ficou gravado em sua alma foi a tonalidade daquela tarde, o momento exato em que a luz da sua mãe se apagou, deixando o mundo dela em um preto e branco irreversível.
A casa, desde então, tem o silêncio da sua mãe.
A ausência materna é a sombra que se alonga a cada marco da sua vida. Ela olha para trás e vê uma sucessão de palcos vazios onde a presença da sua amada mãe deveria ser a protagonista.
A formatura, a beca pesada, o diploma. Ela só enxerga o espaço vago onde a emoção da mãe a faria chorar. A faculdade, a aprovação, não têm o júbilo merecido. O telefone está mudo. Ela sente que a adulta que nasceu em si é órfã de sua maior torcida. E vêm os netos; os netos de sua mãe. Ela os pega no colo e tenta preencher com seu amor o buraco que a avó deixou, lamentando que eles jamais conhecerão a segurança da sua voz.
Mas a saudade não é só grandiosa; é traiçoeira e vive nos detalhes do paladar e da visão. A vida adulta a obriga a ser cozinheira, mas ela jamais será igual à mãe. O cheiro do nhoque da mãe, o sabor da cueca virada, que não é apenas um doce frito, mas um instante de pura infância. Esses sabores são cifras da memória que ninguém mais consegue decifrar. Ela tenta fazer a torta de bolacha, do "jeito da mãe", mas falta o ingrediente invisível: a mão da mãe, sua paciência de quem sabe que o melhor tempero é o afeto. Aquela torta lhe lembra que a perda é irrecuperável. Mas principalmente quando vê uma máquina industrial de costura. Ela via muitas vezes a sua mãe virando a noite costurando para o sustento. Hoje, a filha com orgulho fala: "minha mãe era a melhor costureira que já conheci", e realmente ela era.
A mãe pouco meses antes de partir lhe deixou uma herança incalculável, que dinheiro algum compraria: um casaco feito às pressas para uma das viagens que a filha faria com a igreja. A filha o guarda com todo amor e carinho e uma Bíblia que, após a partida de sua mãe, se tornou sua melhor amiga e a acompanha até os dias atuais.
Hoje, quando o peso da vida adulta é demais, o desejo mais íntimo, mais desesperado, não tem a ver com sucesso ou conquistas: é deitar a cabeça no colo da mãe. Deitar-se e desarmar. Sentir o cheiro de paz da mãe e ouvir o compasso lento do seu coração.
No entanto, a partida da mãe faz mais do que abrir uma ferida; ela redefine o próprio ser da filha. Certo dia, ela lê uma frase que a atinge com a força de uma verdade incontestável: "Após a sua partida, eu não sou mais a pessoa que costumava ser, porque ela também não sobreviveu. Eu sou a que veio depois."
Essa frase resume muito quem ela é hoje. A pessoa que partiu com a mãe era uma adolescente pura, ingênua na sua totalidade, protegida pelo escudo do amor materno. A que fica, a que tem que enfrentar a formatura e a faculdade sozinha, a que educa os netos, é uma adulta quebrada.
Quebrada, sim, mas não destruída. Quebrada no sentido de ser reestruturada, montada novamente, com as rachaduras visíveis que só a dor verdadeira pode deixar. Ela é uma adulta mais forte, mais madura, mas que carrega a fragilidade da ausência. É a versão que precisa aprender a respirar sem o oxigênio da mãe.
Que, onde a mãe estiver, sua alma sinta o orgulho que ela não pôde verbalizar na despedida. Que a mãe saiba que, mesmo com a distância de quinze anos, o seu colo continua sendo o único e eterno lar da filha. E a adulta quebrada que ela é, e sempre será, a sua filha mais amada.




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